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Escrito por Hirmíno Bernardo   

 Réfega mantém, ainda, afortunadamente, alguns dos principais usos, costumes e festividades profano-religiosas, que ao longo dos tempos têm marcado a vida desta pequena e vistosa comunidade rural. Trata-se de um espólio riquíssimo, que continua vivo, que anualmente se repete, com as nuances que a própria vida moderna vai impondo, mas apelando sempre aos valores mais puros de tantas tradições, como factores de coesão social, de bem-estar e de divertimento. Em cada estação do ano, enfim, em cada época, existem festividades próprias, também sempre enquadradas no mundo quotidiano dos trabalhos agrícolas, no clima, no imaginário religioso, aspectos inseparáveis da vida do mundo rural. Há todo um cerimonial profano-religioso que marca a entrada do Inverno. As primeiras festividades prendem-se com o próprio Natal. É tempo de reviver o Nascimento do Menino Jesus, tempo único, irrepetível da História da Humanidade. É tempo de paz, de reconciliação. Tempo da família e dos amigos. Tempo das crianças de todo o mundo, atentos a mil fantasias e promessas. Trazemos, na oportunidade, a lembrança da noite da Consoada. Comido o polvo ou o bacalhau, em família, os moços da minha geração partíamos para a aldeia de Milhão, distante três quilómetros, onde à meia-noite se cantava a Missa do Galo. Vivia-se, verdadeiramente, um ambiente de festa, quando a pretexto de adorar o Menino, homens de um lado e mulheres do outro cantavam, como que ao desafio, «Beijai o Menino». Finda a missa, havia bailarico pela noite dentro. Na Réfega continua a fazer-se o Presépio, no interior da Igreja, ao lado esquerdo da Pia de água benta e do confessanário. Ultimamente, tem-se feito, também, um Presépio no exterior da Igreja. Terminada a Missa, beija-se o Menino Jesus, enquanto se canta em coro:

Beijai o Menino,

Beijai-o agora,

Beijai o Menino,

Que é de Nossa Senhora

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IMPONTAR O ANO VELHO / MORTE DO ANO VELHO ( em 31 de Dezembro ):
   
Vários anos seguidos pude participar nesta costumeira, realizada no último dia de cada ano. É pena que o despovoamento das populações rurais, bem como as novas motivações da juventude, vão fazendo cair no esquecimento esta tradição que, naturalmente, arranca dos inícios dos tempos. Tratava-se aqui de mandar embora o Ano Velho, como algo que foi ruim e que, não prestando, deve acabar.
É, pois,  um apelo à morte do Ano Velho. Pude apurar  que houve a tradição (que em muitas localidades transmontanas ainda perdura) de representar a morte do Ano Velho, executada, simbolicamente, através de um boneco de trapos e palha, que era queimado no dia 31 de Dezembro, pela meia noite . Noutras terras, representa-se a morte e o enterro do Velho, queimando ou afogando o boneco, seguido de enterro, tudo acompanhado por um aparatoso cerimonial, à maneira de  ‘exéquias fúnebres’.
Na Réfega, para  impontar, então, o Ano Velho, juntavam-se novos e velhos, pela meia noite do dia 31 de Dezembro, no centro da aldeia, junto a uma frondosa nogueira (hoje desaparecida), e onde se encontra o tanque da povoação, lugar habitual de encontro dos moços e onde se reunia o «Conselho do Povo». Cada popular levava, consoante o melhor improviso, um qualquer objecto apto para fazer barulho: gadanhas, colheres, latos velhos, chocalhos. Partia-se, depois, em ronda pelas ruas da aldeia, no meio de ruídos desafinados e algazarra geral, impontando com ‘urros’ e gritos o malfazejo Ano Velho e implorando a sua morte. E acabava queimado, representado no boneco. É que se anunciava algo diferente, promissor, rejuvenescido: era o ANO NOVO.

 

A FESTA DO RAMO (em 1 de Janeiro).

 

 Esta é uma festa de devoção e agradecimento à Senhora do Carmo. É como que um reconhecimento à protecção celeste, com que a “Senhora” cobre a comunidade de Réfega, embora sendo padroeira da povoação a devotada Santa Maria Madalena, a “Santa”.
Fazem-se, atempadamente, os preparativos para a festa: há dádivas espontâneas, consoante a devoção, de farinha, ovos, dinheiro, chouriços, etc., que os dois mordomos solteiros (rapaz e rapariga)  se encarregam de juntar e, depois, com apoio voluntário de outros, organiza-se  a festa. No dia anterior, acende-se o forno, fazem-se doces e roscas e monta-se o Ramo, numa armação – o charolo -, que se guarda de uns anos para os outros. O Ramo tradicional é composto por doces (as súplicas), roscas, rebuçados, figos, laranjas e, obrigatoriamente, cigarros, tomando no final a forma de uma árvore – uma árvore fértil.
No primeiro dia do ano faz-se, então, a festa do Ramo, ou Festa da Senhora do Carmo, com missa e ofertório à « Senhora ». Terminada a missa, era costume arrematar o Ramo em hasta pública: de um lado mandam os casados; do outro os solteiros. No final, porém, o Ramo ficava para a comunidade, dividindo-o em quinhões, que outrora eranuma sala, ou, num palheiro desocupado . Os quinhões são comprados pelas famílias e outros particulares, revertendo o dinheiro para pagar as despesas da festa, bem como zelar pelo asseio da Senhora. 

 

Cantar os Reis

 

 O mundo festivo dos Reis, cristianizado, entronca naturalmente na caminhada dos três Reis Magos que foram a Belém adorar o Menino Jesus. Ao longo dos tempos, os povos foram revivendo tal acontecimento, com práticas próprias, consoante  as épocas e as mentalidades particulares.
Esta prática de adorar o Menino Jesus, visitar alguém e ser bem recebido, sentir a hospitalidade de outrem, é bem visível nas inúmeros cantares de Reis que se ouvem um pouco por todo o país, particularmente em Trás-os-Montes. E na Réfega encontra-se, ainda, um invejável reportório de cantares de Reis, que a população teima em preservar.
Neste ano de 2008 cantaram-se, mais uma vez, os Reis. Registam-se aqui letras dessas melodias, muito em voga nesta aldeia.

 

CAPUCHIM, CHIM, CHIM

Refrão:
                                                             
CAPUCHIM, CHIM, CHIM,
ESTA NOITE NOS VEM VER
CAPUCHIM, CHIM, CHIM,
HÁ-DE SER, ATÉ  AMANHECER.

Refrão
……………

QUEM VOS VEM CANTAR OS REIS,
NESTA NOITE DE JANEIRO,
DE CERTO QUE QUER PROVAR
CHOURIÇOS DO SEU FUMEIRO

Refrão
……………

SE O PRESUNTO ESTÁ TESO
E A FACA NÃO QUER CORTAR,
FAÇA-LHE FERRUM, FUM, FUM
NOS BEIÇOS DO ALGUIDAR

Refrão
……………

ESTA VAI POR DESPEDIDA
POR CIMA DUMA BOLOTA
SE NOS QUEREM DAR OS REIS
VENHAM-NOS  ABRIR A PORTA


NOSSA SENHORA VAI-SE HOJE...


Refrão:

NOSSA SENHORA VAI-SE HOJE,
EU EMBARCO E VOU COM ELA;
VAI-SE EMBORA À LUZ DO DIA,
NÃO POSSO VIVER SEM ELA.


INDA AGORA AQUI CHEGUEI,
PUS O PÉ NA SUA ESCADA,
LOGO O MEU CORAÇÃO DISSE
AQUI MORA GENTE HONRADA.

Refrão
……………………

QUEM DIREMOS NÓS QUE VIVA,
POR CIMA DA SALSA CRUA;
VIVA A GENTE DESTA CASA
QUE ILUMINA TODA A RUA.

Refrão
…………………

UM RAMINHO, DOIS RAMINHOS,
TRÊS RAMINHOS... CINCO OU SEIS,
VENHAM-NOS ABRIR A PORTA;
SE NOS QUEREM DAR OS REIS.

 

ORA VEM VER

 

Refrão:    
                                           
ORA VEM VER,
Ó JESUS VEM VER,
AS ONDAS DO MAR
E O SOL A NASCER

AQUI CHEGARAM TRÊS ROSAS,
AI QUATRO, CINCO OU SEIS;
SE OS SENHORES NOS DÃO LICENÇA,
AI VAMOS-LHES A CANTAR OS REIS

 

Refrão
                                                     
ESTA CASA É DE VENTURA,
AI MUITO MAIS É DE BÊNÇÃO,
VIVA LÁ QUEM NELA MORA
AI DEUS LHE DÊ A SALVAÇÃO

 

Refrão
                        
DE CERTO QUE BEM SABEIS
AI POR QUE VIEMOS CANTAR
VENHAM-NOS A DAR OS REIS,
AI QUE TEMOS MUITO P`RA ANDAR
           

                                                                                                                

MATANÇA DO PORCO:

 

 A Matança do Porco na Réfega é o resultado de seculares procedimentos económico-sociais. Rodeia-se de um autêntico ritual para fomentar as relações familiares, amistosas e de boa vizinhança.
Em 5 de Janeiro de 2008, o Grupo Cultural e Recreativo de Réfega cumpriu um desígnio – a Matança do Porco – que constava do seu programa anual de actividades. Sócios e familiares puderam acompanhar toda uma série de procedimentos ancestrais relacionados com a matança tradicional. Não faltou o mata-bicho, à maneira antiga, com pão-trigo caseiro e nozes. Depois, enquanto os homens desfaziam o porco caseiro, as mulheres lavavam as tripas, seguindo-se um lauto banquete.
 A tarde animou-se com uma ronda pelas adegas tradicionais, cantando-se no final os Reis, enquanto se saboreava uma amostra do fumeiro tradicional da aldeia, que as mulheres sabem tão bem fazer e preservar.